Conflitos afetam logística e custos do agronegócio catarinense
Agronegócio catarinense acompanha transformações no Oriente Médio
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A intensificação das tensões internacionais em março de 2026 acendeu um alerta no agronegócio de Santa Catarina. O fechamento de rotas marítimas estratégicas no Estreito de Ormuz, somado à manutenção de sanções no Leste Europeu, já provoca impactos sobre custos, logística e previsibilidade no fornecimento de insumos ao estado.
O cenário de instabilidade no Oriente Médio pressiona a competitividade do setor ao elevar o custo do frete marítimo, encarecer seguros e ampliar o risco operacional das exportações. Dados do Observatório Agro Catarinense indicam que, em 2025, as exportações do agronegócio catarinense para países diretamente e indiretamente afetados pelo conflito somaram cerca de US$ 915 milhões, volume superior ao destinado à União Europeia no mesmo período. Mesmo com a queda dos preços internacionais, houve crescimento dos embarques físicos, especialmente para mercados como Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Israel.
Segundo Roberth Villazon Montalvan, analista de socioeconomia e desenvolvimento agrícola da Epagri/Cepa, “o Irã concentra hoje um dos maiores níveis de risco para Santa Catarina”.
A interrupção de rotas no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho tem efeitos sobre a logística catarinense. Atrasos e desvios de navios impactam a operação dos portos de Porto de Navegantes, Porto de Itapoá e Porto de São Francisco do Sul, reduzindo a disponibilidade de contêineres refrigerados de retorno das zonas de conflito, essenciais às exportações de proteínas animais. O resultado é a alta do frete marítimo e o risco de saturação das retroáreas portuárias e das câmaras frias das agroindústrias do estado.
O conflito amplia os riscos também pelo lado das importações. Santa Catarina depende de fertilizantes e ureia para o cultivo do milho, base da alimentação das cadeias de aves e suínos. Países do Oriente Médio, como Omã, Catar, Bahrein, Arábia Saudita, Egito e Irã, estão entre os principais fornecedores desses insumos ao Brasil, o que amplia a vulnerabilidade do setor diante de bloqueios logísticos e da alta do petróleo.
Com o encarecimento dos fertilizantes, do diesel e do transporte interno, as margens de produtores rurais e frigoríficos ficam pressionadas. Soma-se a isso o risco de alterações unilaterais em tarifas de importação por países da região, em um ambiente de instabilidade geopolítica. O Brasil mantém acordos comerciais, via Mercosul, com mercados como Israel e Egito, além da região da Palestina, e conduz negociações com o Líbano, o que poderia reduzir parte da exposição do agronegócio catarinense a decisões comerciais de países com os quais não há acordos vigentes.
No mercado financeiro, os reflexos já são observados com queda de 4,99% no Ibovespa e pressão cambial, com o dólar chegando em torno de R$ 5,20, o que dificulta o planejamento da próxima safra. Por outro lado, o câmbio elevado pode ampliar a receita em reais das exportações que consigam ser redirecionadas. No mercado interno, cresce o risco de excesso de oferta de proteína animal caso os embarques sejam interrompidos, pressionando preços, margens e a capacidade de armazenagem frigorificada. Diante desse cenário, ganham espaço alternativas de fornecimento de fertilizantes, como Marrocos, Canadá e China, ainda que sem acordos preferenciais com o Brasil.